Constitucional
(28/03/05)
Eu vago pelos corredores da faculdade vazia,
onde pessoas vazias circulam e não a preenchem.
Carteiras vazias,
Incógnitas e livros fechados.
Tudo é simplesmente oco.
Cansei de me cansar e não querer enfrentar a vida,
E dos meus lados há tantas vidas,
há tantos pensamentos...
Um toque de um pé pressiona o meu assento
e o marca um ritmo de tudo isso que eu não consigo entender.
Os sons do motor lá fora,
o ruído metálico das pulseiras e do separador de matérias.
Algumas folhas agonizam amassadas
e aquela voz a frente soa como palavras rotas,
só consigo entender de uma tal emenda 45.
A luz pisca e falha
contra o latido do salto alto sobre o piso.
Meu punho dói,
e a minha caneta exala um cheiro da tinta
que mancha os meus dedos.
O capitalismo, o socialismo...
Já não fazem sentido
e nem diferença em discuti-los.
Um fichário estrala se fechando
e uma tampa quica contra o pseudo-mármore verde
fazendo um ruído engraçado,
disperso por um minuto a atenção.
Minha garganta arranha
como um velho vinil do Raul
que costumava ouvir há uns nove anos atrás.
Num tempo que eu não precisava pensar em ser
e que os adultos me pareciam ter todas as respostas do mundo.
Quanta ingenuidade!
Será que eu não percebia
que se eles as tivessem
esse mundo não seria tão caduco?
Acho que naquele tempo
“ele” me parecia perfeitamente normal,
como se os abismos que eu atravessara
não fossem tão grandes como hoje me parecem.
Só queria aquela segurança,
aquele privilégio de ainda poder escolher ser qualquer coisa no mundo,
longe dessa faculdade vazia,
cheia de pessoas vazias...
e o que mais dói é que eu sou apenas mais uma delas.